Esse texto foi originalmente escrito para a revista Racing de março de 1998.
Hoje faz uma semana que Emerson Fittipaldi disputou as Seis Horas de São Paulo e esse texto traz uma estória que poderia ser diferente da história. E infelizmente (ou felizmente), não foi assim.
Durante um periodo de recuperação após quase ter sido eletrocutado na piscina de seu cachorro, nosso repórter vislumbrou a grande historia de Emerson Fittipaldi e do Copersucar.
La no infinito azul do céu, um ultraleve flutua como se os efeitos da gravidade fossem inócuos ao frágil aeroplano. Num dos assentos, comandando o manche, esta o bicampeão mundial de Formula 1 e campeão mundial de Formula Indy, Emerson Fittipaldi, 50 anos de idade e pelo menos 30 de experiência nos mais diferentes tipos de vôos, inclusive aqueles bem próximos do chão. Ao seu lado, Luca, filho de seu segundo casamento. Cumprindo a religiosa função paternal, Emerson mostra ao filho como o mundo é grande e belo. Ate que o motor começa a ratear.
Um frio percorre o corpo de Emerson, acostumado a ter sua vida sempre equilibrada na tênue linha do risco constante. Tensão. Mais uma vez a falhação: brrrrrr, gasp, glurb, brrrrrrr.
-Não pode ser – raciocina o piloto – este é um motor Rotax, austríaco, de total confiança, os austríacos adoram mecânica, a Rotax é uma empresa seria. Uaaauuuu! Crash!
Primeiro um zumbido. Depois as imagens turvas começaram a aparecer. Nada de anjos e arcanjos tocando trombetas, portanto, sabe que esta vivo. Mas onde? O que aconteceu? Onde esta o Luca? Cadê o ultraleve? Existe vida em outro planeta? O Luciano Zafir vai casar com a Xuxa? Estas eram as primeiras duvidas de Emerson, ainda grogue da porrada contra o solo.
A visão foi entrando no foco e o pânico começou a aumentar. Mas o que é isso, companheiro? Ele esta em Interlagos, em algum boxe!!! Mas porque as pessoas estão usando estas roupas engraçadas? Opa, aquele ali de costeletas ridículas e calça boca de sino eu conheço. É o Reginaldo Leme, repórter do Estadao. Mas por que estas roupas cafonas? Hei! Aquele gordo correndo ali, também conheço, aquele barrigão é do Zampa, mas aquele cabelo comprido ,nos ombros, parece coisa de hippie. Pêra ai! Que carro é este que estou sentado? É um Formula 1. Caspita, é o Copersucar! Isto só pode ser um sonho. Como vim parar aqui? Olha o Wilsinho, meu irmão. Por que ele esta com este ar preocupado? O Eloy Gogliano decascando uma laranja, deixa cair a casca no asfalto; Eloy? Mas ele não morreu?...Meu Deus, acho que morri também. O que estou fazendo aqui nos boxes de Interlagos, dentro de um carro de Formula 1? Mas que puta roubada!
Então....
Emerson tenta falar com seu irmão Wilson, mas ele da sinal para os mecânicos que ligam o motor e Emerson tem de sair dos boxes. Ele engata a primeira, num cambio duro e desajeitado e entra na pista, ovacionado pelo publico. Logo nas primeiras voltas percebe todos os problemas que o carro apresenta: falta de estabilidade, falta de tração, freios lentos, sistema elétrico falho. Ele faz os 7960 metros do circuito de Interlagos quase de olhos fechados, conhece cada centímetro daquela pista que foi seu berço. Na entrada da curva do Laranja encostou no Lótus de Ronnie Peterson, Peterson??? Mas este já morreu!!! Putz, acho que estou no céu, mas no céu não iria correr de Copersucar, deve ser o inferno....
Sem conseguir concentração voltou aos boxes e ficou pensando o que teria acontecido. Lembrou o físico Stephen King, autor do livro “ uma breve historia do tempo” , e imaginou que o acidente de ultraleve o tinha jogado de volta ao passado. Estava não mais com 50 anos mas com 29, porem com experiência e conhecimento acumulados em mais de 20 anos de pista.
Quando desceu do cockpit, Emerson não entendeu mais nada. Olhou a pintura cinza, as cores verde-amarelo-azul e o símbolo da Copersucar que havia pilotado em 1976, depois de sair da Mclaren como vicecampeão do mundo.
Pensou, pensou e concluiu: “mas que raios o Wilson entende de Formula 1? A única experiência dele como construtor foi a invenção do Fitti-Porsche e o Fusca com dois motores que nunca funcionavam em conjunto”.
Então, então....
Retirou o capacete pesado, recebeu um monte de tapinhas nas costas e lembrou daquela velha frase que leu numa revista RACING, escrita por um jornalista meio careca, meio cabeludo (depende do ponto de vista): “O ultimo colocado recebe tantos tapinhas nas costas quanto o vencedor” E ficou irado porque sempre tinha sido um vencedor na vida: 14 vitorias na Formula 1, dois títulos mundiais, mais 23 vitorias na Indy e outro titulo mundial. Deus, de alguma forma meio estranha , o jogou de volta a 1976 para fazer justiça a este homem. Reuniu-se com os projetistas com os técnicos e mecânicos e soltou o verbo:
- Olha aqui, deste jeito com este carro nós não vamos fazer nada, alem de 3 pontos nesta temporada (ele já conhecia o script). Vamos voltar para o escritorio e começar tudo de novo. Este desenho esta errado, esta frente provoca muito arrasto, o carro é largo demais, pesado pacas, tem uma aerodinâmica de perua Kombi, a potencia se perde entre a transmissão e a tração, tudo funciona na base da mecânica, não tem eletrônica, cadê os computadores, os lap-tops, os sistemas pneumáticos de acionamento das válvulas, o turbo compressor, os pneus super macios, bla, bla, bla, bla....
Maria Helena começou a chorar. Ricardo Davila saiu de perto e Wilson sussurrou no ouvido de alguém “já chamaram o Juqueri?” (manicômio paulista).
Quinta Feira , 23 de janeiro de 1976. No escritório , uma pilha de papeis cobre a prancheta, com vários engenheiros reunidos em volta. Tinha gente da embraer, da FEI, do ITA, da IBM, da Goodyear, da Ford, do Juqueri (disfarçados , é claro) e Emerson começou a explicar:
- Para começar temos de mudar o perfil das laterais. Vamos colocar os radiadores deitados, la atras, ao lado do motor. As laterais devem ter o perfil de uma asa de avião, mas invertida, para o ar passar mais rápido por cima e prender o carro no solo. Temos de fazer mini-saias flexíveis que tocam no solo, formando um túnel sob o assoalho, canalizando o vento. A frente deve ser estreita e alta, como o nariz de um tubarão. A tomada de ar esta muito grande, provoca arrasto, devemos reduzir e fazer o ar chegar mais rápido aos coletores de admissão. Os técnicos em eletrônica tem de desenvolver um sistema sensorizado que impeça as rodas traseiras de patinarem no momento da reaceleração, algo assim como um ABS, mas no cambio, bla, bla, bla, bla....
Em volta da mesa os técnicos anotam tudo, engenheiros realizam desenhos, trocam informações e começam a discutir a funcionalidade de tudo aquilo que tinham acabado de ouvir.Enquanto isso Wilson fala ao telefone:
- Vocês tem ai alguma técnica de lobotomia que não deixa cicatrizes? Acho que meu irmão enlouqueceu de vez...
Então...Entao...
Atravessaram a noite e o dia seguinte e mais uma noite mudando o carro, dentro do conceito “emersoniano”. Todos trabalharam duro, desde fornecedores, desenhistas, projetistas, officeboy e a Zefa, coperia, que só tinha uma reclamação:
- O seo Emersão mandou preparar esta gororoba pastosa que chama de sevendeilaite, Pra mim parece mingua de tapioca com leite de jegue. È Mutcho ruim...
Começaram os treinos de sábado em Interlagos. Depois das primeiras voltas, Emerson ria feito criança. Os médicos do Juqueri continuavam ali, vestidos de bandeirinhas para qualquer emergencia. Fazia as curvas 1 e 2 de pé cravado. Os tempos foram baixando, baixando e o queixo de todo mundo caindo, caindo. Depois dos treinos ajustando aqui, mexendo acolá e comendo a gororoba, Emerson conseguiu uma volta em 2min32s8, que dava o quinto tempo no grid, quase tão rápido quanto a volta estabelecida por James Hunt com o Mclaren. Foi o suficiente para Wilson mandar os médicos do Juqueri embora bem ao seu estilo, “Podem suspender a lobotomia, seus ignorantes filhos da p...” Nos boxes todos pulavam de alegria e só conseguiam gritas “ele estava certo!”.
Os carros largaram para o GP Brasil de Formula 1 de 1976. Emerson salta la da terceira fila e vai brigar com Hans Stuck, Jody Scheckter, Patrick Depailler e Tom Pryce (epa, estes dois também já eram...). Vai subindo de posição volta a volta. O publico em Interlagos pula, salta, grita, torce, desmaia chilica quando Emerson sobe a Reta dos Boxes em terceiro, grudado no vácuo do Mclaren de James Hunt. (Hunt? Mas este ai também....). Papai Fittipaldi, o Barão Wilson, solta o verbo para os ouvintes da Jovem Pan: “Eu sabia! Eu sabia! Vai Emerson , mostra a força da tecnologia brasileira, vai Emerson Fittipaldi do Brassssiiiiiiilll”, frases que mais tarde seriam atribuídas a outro locutor.
Na 38.Volta, de um total de 40, Emerson passa Hunt e engata na traseira da Ferrari de Niki Lauda. Faz a curva do Sol com a traseira desgarrando de leve, acelerando o maximo para sair mais forte. Na frenagem da Curva do Sargento ele ultrapassa Lauda e some na frente do austríaco. Quando cruza a linha de chegada em primeiro lugar o imenso publico que se juntava nas arquibancadas não se conteve. Pessoas desmaiavam, outras choravam, um casal fazia amor na arquibancadas tamanha era a felicidade (ou assanhamento) diante de tão inesperado resultado.
Mal consegue descer do carro e Emerson é agarrado por uma multidão de torcedores. Todos querem pega-lo, abraça-lo, beija-lo, etceteralo. Os outros chefes de equipes se juntam em volta do Copersucar , embasbacados diante de tanto remendo e silvertape, com a pintura feita as pressas por um pintor desconhecido, roqueiro, com nome de inseto, um tal de Sid Mosca. O que ninguém imaginava aconteceu: o Copersucar deu certo.
Então tudo Mudou
A partir deste inesperado fenômeno, todo automobilismo tomou um novo rumo. Emerson e sua equipe continuaram a evolução do carro, que venceu cinco corrida consecutivas (África do Sul, Long Beach, Espanha, Bélgica e Mônaco), provando que alem de rápido aquele carro era versátil. A equipe iria inventar o pit-stop, abastecendo com pouca gasolina, utilizando pneus macios para abrir grande vantagem entrar nos boxes e sair de novo. Emerson foi campeão mundial pela terceira vez e a Ferrari cresceu o olho para cima do campeão. O comendador Enzo Ferrari confidenciava “é melhor um brasileiro do que dois mancofurbos”, frase que seria revista em outra ocasião na Formula 1.
As conseqüências desta volta no túnel do tempo foram:
- Ricardo Divila foi contratado a peso de ouro pela equipe Mclaren, que fecharia as portas em 1984 depois de inúmeros fracassos, sem que ninguém entendesse nada
- Emerson Fittipaldi conquistaria mais de 60 vitorias na Formula 1, seis campeonatos mundiais, quebrando todos os recordes da historia do automobilismo mundial. Alem do dinheiro arrecadado com os patrocínios miolionarios, ainda amealhou uma fortuna nos bolões dos jogos das copas do mundo de futebol. De quebra, ainda ligou para o Tele Santana pedindo pelo amor de Deus para não deixar o Toninho Cerezo jogar contra a Itália, marcarem o Paolo Rossi a cada segundo e a Seleção foi tetracampeã do mundo, em 1982.
- A equipe Fittipaldi tornou-se um celeiro de pilotos brasileiros em ascensão na Formula 1, recebendo todos os futuros expoentes. Assim, Nelson Piquet conquistou seu primeiro titulo correndo na Saudia-Fittipaldi (que recebeu uma imensa fortuna dos patrocinadores árabes), em 1979
- Chico Serra foi campeão mundial em 1980, ano de sua estréia, fazendo Keke Rosberg mudar para a equipe Williams declarando-se prejudicado pela proteção ao piloto brasileiro.
- Emerson Fittipaldi foi nomeado assessor do mesmo Tele Santana na Copa do Mundo de 1986, impedindo que Zico batesse o pênalti contra a França e o Brasil foi pentacampeão do mundo.
- Frank Williams conseguiu patrocínio de um grupo árabe concorrente e , copiando as idéias de Emerson , montou uma super equipe, que iria revezar com a Fittipaldi-Marlboro os títulos dos anos 80 e 90.
- Em 85 convence a Renault a fornecer seus motores turbo e contrata Ayrton Senna, que venceria varias corridas e títulos, batendo inclusive os recordes de Emerson, tornando-se o maior piloto da Formula de todos os tempos, ate se aposentar em 1994, para cuidar dos filhos da Xuxa em Tatuí.
- Monta equipes na Formula 3 e Formula 3000 para receber e treinar os pilotos brasileiros.
- Contrata Christian Fittipaldi e Rubens Barrichello para formar o Dream Team de 1992, com os dois revezando-se nas vitórias e títulos mundiais.
- A Ferrari Amarga um longo período de jejum e tenta contratar Emerson como consultor, mas o brasileiro se diz cansado da Formula 1 e vai morar nos EUA.
- No aeroporto Internacional de Washington conhece um rapazinho, franzino, óculos de grau, meio gente, meio CDF, chamado de Bill Gates, que tentava convence-lo a descolar um emprego na Fittipaldi Tecnology, mas aconselha o pentelho a investir em programas de computador porque esta seria “a estrada do futuro”.
- Monta uma equipe na Indy e vence varias vezes as 500 milhas de Indianápolis, alem de vários títulos, ate se aposentar em 1996 depois de ganhar o premio de Piloto do Século.
Foi graças a queda do ultraleve que toda a historia do automobilismo mundial mudou e...espera ai, quem são esses homens de branco aqui do meu lado? De onde? Pinel? Juqueri? O que é isso? Hei, que camisa estranha é esta sem botão na frente e que os braços são amarrados para trás? Socoooooooooorro! Querem me tirar do altar........

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